quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Hidrelétricas emitem menos carbono do que se pensava


Emissão de gases de efeito estufa é menor conforme aumenta a latitude e a idade do reservatório

Isis Nóbile Diniz
Edição Online - 1º/08/2011

Existe geração de energia completamente limpa? Nem as hidrelétricas, que têm como matéria-prima um recurso renovável, a força da água no curso de rios, escapam da análise: elas também emitem gases de efeito estufa como dióxido de carbono (CO2) e o metano (CH4).

Porém, uma equipe internacional coordenada por Fábio Roland, professor da Universidade Federal de Juiz de Fora, Minas Gerais, conclui que as emissões são mais baixas do que se imaginava. Elas correspondem a 4% das emissões globais de carbono provenientes das águas distribuídas dentro dos continentes – rios, lagos, lagoas –, sendo que representam 20% dos reservatórios em geral, incluindo aqueles destinados ao abastecimento humano e à agricultura. Além disso, o grupo também concluiu que a emissão diminui quanto maior a latitude em que se encontram e quanto mais tempo têm. As mais poluidoras estão localizadas na Amazônia.

O estudo, publicado na Nature Geoscience desta semana (31 de julho), considerou 85 reservatórios distribuídos no mundo todo e se baseou em dados de revistas científicas renomadas como a Science até o final de 2010. Os cientistas de maneira geral acreditavam que os reservatórios de água feitos pelo homem emitiam 321 teragramas (Tg, 321 gramas com mais 12 zeros) de carbono por ano. No entanto, a equipe verificou que o número relativo aos reservatórios destinados à geração de energia é de 48 Tg de carbono. “É pouco, mas a energia hidrelétrica está se expandindo. Esse número certamente vai aumentar”, acredita Roland. “Muitos países como a China e a Índia estão centrando suas matrizes energéticas em hidreletricidade. Eles estão construindo grandes reservatórios”, completa.

Por enquanto, o Brasil e o Canadá são os principais produtores de energia hidrelétrica. Algumas delas, como a Usina Hidrelétrica de Balbina, estão localizadas na região amazônica e se destacam por ainda emitirem carbono para a atmosfera. Uma das explicações está na latitude: as atividades de decomposição são mais intensas nos reservatórios próximos ao Equador. “Mesmo assim, as usinas que geram energia usando combustível fóssil emitem mais carbono do que a de Balbina”, alerta o pesquisador.

Também devido à decomposição, a idade da hidrelétrica interfere nas emissões. Conforme o tempo passa, há menos material para ser degradado. “Quando um reservatório acaba de ser criado, o solo e a vegetação terrestres são inundados. A matéria orgânica que fica imersa nas águas dos reservatórios é decomposta por bactérias. O consumo gera dióxido de carbono a partir da respiração durante o processo de degradação. No fundo dos reservatórios, nas camadas sem oxigênio, o metano é formado pela ação de bactérias metanogênicas que degradam a matéria orgânica do solo e da vegetação inundada”, explica o pesquisador. “Quando se coloca chá de erva cidreira em um copo e depois se joga água em cima, o líquido começa a ficar esverdeado; o material da planta é liberado para a água. No caso dos reservatórios, o material orgânico dissolvido na água é fonte de alimento para as bactérias.”

Assim, Roland afirma que uma das maneiras de diminuir as emissões é alagar uma área menor. “Na região amazônica, os reservatórios das hidrelétricas de Santo Antônio e de Jirau, por exemplo, terão uma área alagada pequena. Isso porque a energia será gerada aproveitando a elevada vazão do rio Madeira”, conta. Sobre a usina de Belo Monte, o pesquisador diz que desconhece o projeto de engenharia. “A engenharia, em particular a de hidrelétricas, tem avançado muito graças à ecologia. É possível criar novas tecnologias para a geração de energia e, inclusive, sem inundar uma área grande”, acredita.

O didático Fábio Roland, neste momento, está na cidade holandesa de Wageningen como parte de uma cooperação entre os países na universidade de mesmo nome estudando o papel das cianobactérias - organismos fotossintetizantes que vivem flutuando na água - em ecossistemas aquáticos. “Elas produzem substâncias tóxicas para o consumo humano”, explica em entrevista feita por programa de conversa telefônica on-line, no escritório emprestado pela guarda florestal do local. Do seu trabalho de campo, o professor se diz satisfeito em contribuir para a discussão que visa a contenção do aquecimento global. “Este é um momento especial para a ciência brasileira. Estamos realizando pesquisas de excelência para ajudar no entendimento do papel dos reservatórios de hidrelétricas no contexto das mudanças climáticas. Atualmente, o Brasil está trabalhando no Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC)”, comemora. E, do interior da Holanda, lembra dos alunos: “Nathan Barros, o primeiro autor citado no artigo, é estudante de doutorado. Daqui a alguns anos o mundo, principalmente o Brasil, terá um contingente de especialistas em reservatórios”. Assim, do lado de cá do planeta, o grupo de Juiz de Fora continua o trabalho investigando a ecologia dos reservatórios brasileiros.