quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Mike Whitney explica o ódio de Washington contra Chávez


. pescado no Vi o Mundo


5 de janeiro de 2011 às 14:45

Venezuela vs. os Bancos

Why Washington Hates Hugo Chavez [Porque Washington odeia Hugo Chavez]

By MIKE WHITNEY, no Counterpunch

No fim de novembro a Venezuela foi martelada por chuvas torrenciais e enchentes que deixaram 35 pessoas mortas e 130 mil desabrigadas. Se George Bush fosse o presidente, em vez de Hugo Chavez, os desabrigados seriam empurrados sob a mira de armas para prisões improvisadas — como a Superdome – como aconteceu depois do furacão Katrina. Mas esta não é a forma de trabalho de Chavez. O presidente venezuelano rapidamente aprovou “leis habilitantes” que deram a ele poderes especiais para dar ajuda de emergência e moradia para as vítimas das enchentes. Chavez mandou limpar o palácio presidencial e deu moradia nele a 60 famílias, o que seria o equivalente a transformar a Casa Branca em um abrigo para os sem teto. As vítimas do desastre estão agora sendo alimentadas e cuidadas pelo estado até que possam ficar em pé e retornar ao trabalho.

Os detalhes do que Chavez fez foram omitidos pela mídia dos Estados Unidos, onde ele é regularmente demonizado como “autoritário esquerdista” ou ditador. A mídia se nega a admitir que Chavez diminiu a diferença de renda, eliminou o analfabetismo e deu cobertura de saúde a todos os venezuelanos, reduziu a desigualdade e aumentou o padrão de vida para todos. Enquanto Bush e Obama estavam expandindo as guerras externas e aprovando cortes de impostos para os ricos, Chavez estava ocupado melhorando a vida dos pobres e necessitados, ao mesmo tempo em que enfrentava a última onda de agressão dos Estados Unidos.

Washington despreza Chavez porque ele se nega a dar os vastos recursos da Venezuela para as elites corporativas e os banqueiros. É por isso que o governo Bush tentou depor Chavez em um golpe fracassado em 2002 e é por isso que o fala-mansa do Obama continua a lançar ataques clandestinos contra Chavez hoje. Washington quer troca de regime para poder instalar a marionete que dará as reservas de petróleo da Venezuela para o “big oil” [grandes companhias petrolíferas privadas], enquanto transforma em inferno a vida dos trabalhadores.

Documentos recentemente divulgados pelo Wikileaks mostram que o governo Obama aumentou sua interferência nos assuntos internos da Venezuela. Aqui está um trecho de um documento divulgado pela advogada e autora Eva Golinger:

“Em documento secreto de autoria do atual subsecretário assistente de estado para assuntos do hemisfério, Craig Kelly, mandado da embaixada dos Estados Unidos em Santiago em junho de 2007 para o secretário de Estado, a CIA e o Comando Sul do Pentágono, além de uma série de embaixadas dos Estados Unidos na região, Kelly propõe “seis áreas principais de ação para o governo dos Estados Unidos limitarem a influência de Chavez” e “recuperar a liderança dos Estados Unidos na região”.

Kelly, que fez o papel principal de “mediador” durante o golpe do ano passado em Honduras contra o presidente Manuel Zelaya, classifica o presidente Hugo Chavez como “inimigo” em seu relatório.

“Conheça o inimigo: Temos de entender melhor como o Chavez pensa e o que pretende… para efetivamente enfrentar a ameaça que ele representa, precisamos conhecer melhor seus objetivos e como ele pretende perseguí-los. Isso requer melhor inteligência de todos os nossos paises”. Mais adiante no memorando, Kelly confessa que o presidente Chavez é um “adversário formidável” mas, acrescenta, “ele pode ser derrotado”. (Wikileaks: Documentos confirmam planos dos Estados Unidos contra a Venezuela, de Eva Golinger, no blog Postcards from the Revolution)

Os telegramas do Departamento de Estado mostram que Washington tem financiado grupos anti-Chavez na Venezuela através de organizações não-governamentais que dizem trabalhar pelas liberdades civis, direitos humanos e promoção da democracia. Esses grupos se escondem por trás de uma fachada de legitimidade, mas sua proposta real é a de derrubar o governo democraticamente eleito de Chavez. Obama apoia esse tipo de suversão tão entusiasticamente quanto Bush. A única diferença é que a equipe de Obama é mais discreta. Aqui está outro trecho no qual Golinger detalha o caminho do dinheiro:

“Na Venezuela, os Estados Unidos tem apoiado grupos anti-Chavez por mais de oito anos, inclusive aqueles que executaram o golpe contra o presidente em abril de 2002. Desde então, os fundos foram aumentados substancialmente. Um relatório de maio de 2010 avaliando o apoio estrangeiro a grupos políticos da Venezuela, feito a pedido do National Endownment for Democracy, revelou que mais de 40 milhões de dólares anuais são destinados a grupos anti-Chavez, a maioria através de agencias dos Estados Unidos… A Venezuela se destacou na América Latina como o país que mais recebeu fundos do NED para grupos de oposição durante 2009, com 1 milhão 818 mil e 473 dólares, mais que o dobro do ano anterior… Allen Weinstein, um dos fundadores do NED, revelou ao Washington Post, “o que fazemos hoje era feito clandestinamente pela CIA 25 anos atrás…” (“‘Operações na Sociedade Civil’ clandestinas dos Estados Unidos: Interferência na Venezuela continua a crescer”, Eva Golinger, no site Global Research).

Na segunda-feira, o governo Obama revogou o visto do embaixador da Venezuela em Washington em retaliação à rejeição de Chavez da nomeação de Larry Palmer para embaixador dos Estados Unidos em Caracas. Palmer tem sido abertamente crítico de Chavez e diz que existem ligações claras entre membros do governo Chavez e guerrilheiros esquerdistas da vizinha Colômbia. É uma forma torta de acusar Chavez de terrorismo. Ainda pior, a origem e a história pessoal de Palmer sugerem que a nomeação dele representa ameaça à segurança nacional da Venezuela. Considere os comentários feitos por James Suggett, do site Venezuelanalysis no Eixo da Lógica:

“Olhem a história de Palmer, trabalhando para os oligarcas apoiados pelos Estados Unidos na República Dominicana, Uruguai, Paraguai, Serra Leoa, Coreia do Sul e Honduras, “promovendo o Tratado de Livre Comércio da América do Norte [NAFTA]“. Da mesma forma que a classe dominante dos Estados Unidos indicou um afro-americano, Barack Obama, para substituir George W. Bush e para deixar o resto intacto, Obama, por sua vez, indica Palmer para substituir Patrick Duddy, que se envolveu na tentativa de golpe contra o presidente Chávez em 2002 e que foi um inimigo dos venezuelanos no período em que foi embaixador dos Estados Unidos na Venezuela”.

A Venezuela já está cheia de espiões e sabotadores dos Estados Unidos. Eles não precisam da ajuda da embaixada. Chavez fez a coisa certa ao fazer sinal negativo para Palmer. Além disso, Chavez desprovou as acusações espúrias de Palmer na semana passada, quando extraditou o comandante da ELN, Nilson Albian Teran Ferreira, o Tulio, para a Colombia, “a primeira extradição de um guerrilheiro colombiano para seu país”. A notícia não saiu na mídia ocidental (porque prova que Chavez não apoia os grupos paramilitares que operam na Colômbia).

A nomeação de Palmer não é “mais do mesmo”; mais interferência, mais subversão, mais problemas. O Departamento de Estado foi largamente responsável pelas assim-chamadas revoluções coloridas na Ucrânia, Líbano, Georgia e Quirguistão etc.; todas foram armações feitas para a TV, que colocaram de um lado os interesses de ricos capitalistas contra os de governos eleitos. Agora a turma da Hillary quer tentar a mesma estratégia na Venezuela. É papel do Chavez evitar isso, razão pela qual ele aprovou uma lei para “regulamentar, controlar ou proibir o financiamento estrangeiro de atividades políticas”. Enfrentar as ONGs é a única forma de se defender contra a interferência dos Estados Unidos e proteger a soberania venezuelana.

Chavez também está usando seus novos poderes para reformar o setor financeiro. Aqui está um excerto de um artigo intitulado “Assembleia Nacional venezuelana aprova lei fazendo dos bancos um ’serviço público’”:

“A Assembleia Nacional da Venezuela na sexta-feira aprovou legislação que define a indústria bancária como ’serviço público’, requerendo que os bancos contribuam mais para os programas sociais, a construção de moradias e outras necessidades sociais, tornando mais fácil a intervenção do governo quando os bancos não cumprirem as prioridades nacionais. A nova lei protege os bens dos clientes dos bancos no caso de irregularidades cometidas pelos donos… e estipula que o Superintendente de Instituições Bancárias considere o interesse dos clientes — não apenas dos acionistas… quando tomar decisões que afetem as operações bancárias”.

Então por que Obama não está fazendo o mesmo? Ele tem medo de qualquer mudança real ou é um lacaio de Wall Street? Aqui, mais um pouco do mesmo artigo:

“Numa tentativa de controlar a especulação, a lei limita a quantidade de crédito que pode ser dado a indivíduos ou entidades privadas ao fixar 20% como o máximo total de seu capital que o banco pode emprestar. A lei também limita a formação de grupos financeiros e proíbe os bancos de ter participação em corretoras ou empresas de seguros. A lei também estipula que 5% dos lucros brutos dos bancos devem ser dedicados a projetos elaborados pelos conselhos comunais; 10% do capital do banco deve ser colocado em um fundo para pagar salários e pensões em caso de falência. De acordo com dados de 2009 da Softline Consultores, 5% dos lucros brutos da indústria bancária da Venezuela no ano passado equivaleriam a 314 milhões de bolivares, ou 73,1 milhões de dólares, para programas sociais para atender as necessidades da maioria pobre da Venezuela”.

“Controlar especulação?” Aí está uma boa ideia. Naturalmente, os líderes da oposição chamaram as novas leis de “um ataque contra a liberdade econômica”, mas isso é pura besteira. Chavez está meramente protegendo o público das práticas predatórias dos banqueiros sedentos de sangue. A maioria dos americanos desejaria que Obama fizesse o mesmo.

De acordo com o Wall Street Journal, “Chávez ameaçou expropriar os grandes bancos no passado se eles não aumentassem os empréstimos para pequenos negócios e compradores de casas; desta vez está aumentando a pressão publicamente para mostrar preocupação com a falta de moradias para 28 milhões de habitantes da Venezuela”.

Caracas sofre de uma maciça falta de moradias que se tornou ainda pior por causa das enchentes. Dezenas de milhares de pessoas precisam de abrigo, razão pela qual Chavez está colocando pressão nos bancos para emprestar. Naturalmente, os bancos não querem ajudar, por isso estão no modo-bebê-chorão. Mas Chavez descartou a choradeira e os colocou “sob aviso”. De fato, na terça-feira, ele deu um alerta direto:

“Qualquer banco que escorregar… vou expropriá-lo, seja o Banco Provincial, o Banesco ou o Banco Nacional de Crédito”.

Bravo, Hugo. Na Venezuela de Chavez as necessidades básicas das pessoas comuns e trabalhadoras tem precedente sobre os lucros dos banqueiros. É surpresa que Washington o odeie?



segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

domingo, 2 de janeiro de 2011

typewriter

. que tal datilografar assim ?





sábado, 1 de janeiro de 2011

aquarelas


lista de reprodução :

1º video : Aquarela Brasileira

:: compositor : Silas de Oliveira

:: intérprete : Martinho da Vila

2º video : Aquarela do Brasil

:: compositor : Ary Barroso

:: intérprete : Francisco Alves (1939)

3º video : Aquarela do Brasil

:: compositor : Ary Barroso

:: intérprete : Carlos Barbosa Lima, violão solo


. . para abrir a lista de reprodução
. . . basta apertar o botão que se parece com uma fita K7
. . e que está entre os botões tocar e o volume




sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

2011


. pois é

. . um ano acaba

. . . e começa outro

. . é sempre assim

. todo ano


quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Só 6% das lâmpadas têm descarte correto





Só 6% das lâmpadas têm descarte correto

Brasil tem poucas empresas capacitadas para fazer a reciclagem adequada das fluorescentes

29 de dezembro de 2010 | 0h 00


Andrea Vialli - O Estado de S.Paulo

O que fazer com as lâmpadas fluorescentes após a vida útil? Das mais de 200 milhões de unidades que são consumidas anualmente no Brasil, apenas cerca de 6%, ou 12 milhões, recebem destinação correta - o que inclui a retirada do mercúrio e a reciclagem de seus componentes, como vidro e alumínio.

Atualmente, a falta de uma estrutura de coleta para que o consumidor leve suas lâmpadas e o pequeno número de empresas capacitadas para realizar a destinação correta do material são os grandes desafios. Em todo o País, não existe mais que uma dezena de empresas licenciadas para reciclar o material.

"A demanda existe, mas há poucas empresas que se dedicam a essa atividade porque é baixo o valor de mercado para os resíduos do processo de descarte de lâmpadas fluorescentes. E isso inibe as empresas", afirma Plínio Di Masi, diretor-geral da Naturalis Brasil, recicladora de lâmpadas de Itupeva (SP).

A Naturalis Brasil atende companhias que, por força da legislação ou de programas de gestão ambiental, como a certificação da ISO 14001, são obrigadas a dar destinação correta às lâmpadas. São cerca de 50 clientes, entre hospitais, escolas e indústrias. Mas também recebe lâmpadas de consumidores e condomínios que não sabem o que fazer com o resíduo.

Segundo outro reciclador, a Tramppo, em Cotia (SP), que tem cerca de 400 clientes, entre eles o Metrô de São Paulo, a demanda pelo serviço de descontaminação e reciclagem de lâmpadas vem crescendo fortemente nos últimos anos. "Nossos clientes, em sua maioria, são empresas que possuem programas de gestão ambiental e precisam dar destino correto a esse tipo de resíduo", diz Carlos Alberto Patchelli, diretor da Tramppo.

A empresa nasceu na incubadora de negócios da Universidade de São Paulo (Cietec/USP), vislumbrando o mercado potencial de reciclagem de lâmpadas. A tecnologia empregada permite, por exemplo, que o pó fosfórico, subproduto do processo de reciclagem, seja reaproveitado na indústria de cerâmica. O vidro vai para a produção de pisos e o perigoso mercúrio é reutilizado na produção de barômetros e termômetros. "A proposta é fechar o ciclo", diz Patchelli.

Custos. O Estado de São Paulo ainda precisa concluir a regulamentação da Política Estadual de Resíduos Sólidos, que vai impor metas de reciclagem para determinados tipos de resíduos, como pilhas, embalagens de agrotóxicos e lâmpadas.

A definição das metas deveria sair até o dia 31, mas, segundo o secretário adjunto de Meio Ambiente de São Paulo, Casemiro Tércio Carvalho, o prazo para que a indústria se adapte à coleta das lâmpadas nos pontos de venda deve ser prorrogado até fevereiro. "Existe um custo para a logística reversa desse material. Mas isso tem de ser feito, e um dos caminhos é por meio de parcerias entre a indústria e os pontos de venda." Segundo os recicladores, o custo de reciclar uma lâmpada fluorescente fica entre R$ 1 e R$ 1,20.

Outro problema, segundo Carvalho, é que há poucas empresas habilitadas a fazer o descarte e a reciclagem dos componentes das lâmpadas. Em todo o Estado de São Paulo, por exemplo, só há quatro. De acordo com a própria Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb), a quantidade é insuficiente para atender à demanda que a lei de resíduos estadual vai gerar. Sozinho, o Estado consome nada menos do que 65% das lâmpadas fluorescentes vendidas no País.

Logística. O Brasil tem algumas iniciativas de coleta de lâmpadas. A Apliquim Recicla Brasil, hoje a maior recicladora de lâmpadas do País - processa em torno de 7,5 milhões de unidades/ano -, fechou parcerias com lojas de materiais de construção do Rio de Janeiro e de Caxias do Sul (RS) para receber descarte dos consumidores. Grandes redes, como Leroy Merlin, também já começam a coleta em algumas lojas. "Mas são iniciativas pontuais, que não atendem o consumidor. A maioria acaba descartando as lâmpadas no lixo comum", diz Eduardo Sebben, diretor superintendente da Apliquim Recicla Brasil.

De olho na obrigatoriedade futura, indústria e varejo começam a se articular. A Philips deve incluir, no primeiro semestre de 2011, as lâmpadas fluorescentes em seu projeto Ciclo Sustentável, que realiza a logística reversa de eletroeletrônicos, pilhas e baterias.


PARA ENTENDER

Faltam critérios mais rígidos para destinação

A Lei Nacional de Resíduos Sólidos, de 2 de agosto de 2010, foi regulamentada na semana passada, mas não houve detalhamento sobre a questão da destinação e reciclagem das lâmpadas. Havia a expectativa de que seriam impostos critérios mais rígidos para a destinação desse tipo de resíduo, o que ainda não ocorreu.

Segundo o decreto, os consumidores que não separarem o lixo seco do úmido estarão sujeitos a multas. Entre outras medidas, o decreto prevê penalidades para aqueles que não cumprirem as obrigações estabelecidas na coleta seletiva e nos sistemas de logística reversa, pelo qual aparelhos eletroeletrônicos, pilhas e pneus terão de retornar aos fabricantes. A punição pode vir em forma de advertência e, em caso de reincidência, multas de R$ 50 a R$ 500.



segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

As mulheres do MST


. texto denso e necessário

. . em tempos de demonização do MST

. . . escrito por MARIA ORLANDA PINASSI

. . publicado no Nassif

. vá lá - aqui - pra ler


domingo, 26 de dezembro de 2010

Gabriel García Márquez : Estas sinistras festas de Natal


. o escritor colombiano escreveu, há 30 anos, em artigo para o El País
. . pescado no Vi o Mundo
. . . e no Vermelho

* * *

Ninguém mais se lembra de Deus no Natal. Há tanto barulho de cornetas e de fogos de artifício, tantas grinaldas de fogos coloridos, tantos inocentes perus degolados e tantas angústias de dinheiro para se ficar bem acima dos recursos reais de que dispomos que a gente se pergunta se sobra algum tempo para alguém se dar conta de que uma bagunça dessas é para celebrar o aniversário de um menino que nasceu há 2 mil anos em uma manjedoura miserável, a pouca distância de onde havia nascido, uns mil anos antes, o rei Davi.

Cerca de 954 milhões de cristãos – quase 1 bilhão deles, portanto – acreditam que esse menino era Deus encarnado, mas muitos o celebram como se na verdade não acreditassem nisso. Celebram, além disso, muitos milhões que nunca acreditaram, mas que gostam de festas e muitos outros que estariam dispostos a virar o mundo de ponta cabeça para que ninguém continuasse acreditando. Seria interessante averiguar quantos deles acreditam também no fundo de sua alma que o Natal de agora é uma festa abominável e não se atrevem a dizê-lo por um preconceito que já não é religioso, mas social.

O mais grave de tudo é o desastre cultural que estas festas de Natal pervertidas estão causando na América Latina. Antes, quando tínhamos apenas costumes herdados da Espanha, os presépios domésticos eram prodígios de imaginação familiar. O menino Jesus era maior que o boi, as casinhas nas colinas eram maiores que a Virgem e ninguém se fixava em anacronismos: a paisagem de Belém era complementada com um trenzinho de arame, com um pato de pelúcia maior que um leão que nadava no espelho da sala ou com um guarda de trânsito que dirigia um rebanho de cordeiros em uma esquina de Jerusalém.

Por cima de tudo, se colocava uma estrela de papel dourado com uma lâmpada no centro e um raio de seda amarela que deveria indicar aos Reis Magos o caminho da salvação. O resultado era na realidade feio, mas se parecia conosco e claro que era melhor que tantos quadros primitivos mal copiados do alfandegário Rousseau.

A mistificação começou com o costume de que os brinquedos não fossem trazidos pelos Reis Magos – como acontece na Espanha, com toda razão –, mas pelo menino Jesus. As crianças dormíamos mais cedo para que os brinquedos nos chegassem logo e éramos felizes ouvindo as mentiras poéticas dos adultos.

No entanto, eu não tinha mais do que cinco anos quando alguém na minha casa decidiu que já era hora de me revelar a verdade. Foi uma desilusão não apenas porque eu acreditava de verdade que era o menino Jesus que trazia os brinquedos, mas também porque teria gostado de continuar acreditando. Além disso, por uma pura lógica de adulto, eu pensei então que os outros mistérios católicos eram inventados pelos pais para entreter aos filhos e fiquei no limbo.

Naquele dia – como diziam os professores jesuítas na escola primária –, eu perdi a inocência, pois descobri que as crianças tampouco eram trazidas pelas cegonhas desde Paris, que é algo que eu ainda gostaria de continuar acreditando para pensar mais no amor e menos na pílula.

Tudo isso mudou nos últimos 30 anos, mediante uma operação comercial de proporções mundiais que é, ao mesmo tempo, uma devastadora agressão cultural. O menino Jesus foi destronado pela Santa Claus dos gringos e dos ingleses, que é o mesmo Papai Noel dos franceses e aos que conhecemos de mais. Chegou-nos com o trenó levado por um alce e o saco carregado de brinquedos sob uma fantástica tempestade de neve.

Na verdade, este usurpador com nariz de cervejeiro é simplesmente o bom São Nicolau, um santo de quem eu gosto muito e porque é do meu avô o coronel, mas que não tem nada a ver com o Natal e menos ainda com a véspera de Natal tropical da América Latina.

Segundo a lenda nórdica, São Nicolau reconstruiu e reviveu a vários estudantes que haviam sido esquartejados por um urso na neve e por isso era proclamado o patrono das crianças. Mas sua festa é celebrada em 6 de dezembro, e não no dia 25. A lenda se tornou institucional nas províncias germânicas do Norte no final do século 18, junto à árvore dos brinquedos e a pouco mais de cem anos chegou à Grã-Bretanha e à França.

Em seguida, chegou aos Estados Unidos, e estes mandaram a lenda para a América Latina, com toda uma cultura de contrabando: a neve artificial, as velas coloridas, o peru recheado e estes quinze dias de consumismo frenético a que muito poucos nos atrevemos a escapar.

No entanto, talvez o mais sinistro destes Natais de consumo seja a estética miserável que trouxeram com elas: esses cartões postais indigentes, essas cordinhas de luzes coloridas, esses sinos de vidro, essas coroas de flores penduradas nas portas, essas músicas de idiotas que são traduções malfeitas do inglês e tantas outras gloriosas asneiras para as quais nem sequer valia a pena ter sido inventada a eletricidade.

Tudo isso em torno da festa mais espantosa do ano. Uma noite infernal em que as crianças não podem dormir com a casa cheia de bêbados que erram de porta buscando onde desaguar ou perseguindo a esposa de outro que acidentalmente teve a sorte de ficar dormido na sala.

Mentira: não é uma noite de paz e amor, mas o contrário. É a ocasião solene das pessoas de quem não gostamos. A oportunidade providencial de sair finalmente dos compromissos adiados porque indesejáveis: o convite ao pobre cego que ninguém convida, à prima Isabel que ficou viúva há 15 anos, à avó paralítica que ninguém se atreve a exibir.

É a alegria por decreto, o carinho por piedade, o momento de dar presente porque nos dão presentes e de chorar em público sem dar explicações. É a hora feliz de que os convidados bebam tudo o que sobrou do Natal anterior: o creme de menta, o licor de chocolate, o vinho passado.

Não é raro, como aconteceu frequentemente, que a festa acabe a tiros. Nem tampouco é raro que as crianças – vendo tantas coisas atrozes – terminem acreditando de verdade que o menino Jesus não nasceu em Belém, mas nos Estados Unidos.



terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Umberto Eco : Piratas vingadores e espiões em diligência



02 dezembro 2010 LIBÉRATION PARIS

Para o célebre romancista e intelectual Umberto Eco, o caso WikiLeaks faz ressaltar a hipocrisia que rege as relações entre os Estados, os cidadãos e a Comunicação Social e prefigura um regresso a métodos arcaicos de comunicação.

O caso WikiLeaks tem uma dupla leitura. Por um lado, revela-se um escândalo aparente, um escândalo que só escandaliza por causa da hipocrisia que rege as relações entre os Estados, os cidadãos e a Comunicação Social. Por outro, anuncia profundas alterações a nível internacional e prefigura um futuro dominado pela recessão.

Mas vamos por partes. O primeiro aspeto revelado pelo WikiLeaks é a confirmação do facto de cada processo constituído por um serviço secreto (de qualquer nação) ser composto exclusivamente por recortes de imprensa. As “extraordinárias” revelações norte-americanas sobre os hábitos sexuais de Berlusconi apenas relatam o que há meses se anda a ler em qualquer jornal (exceto naqueles de que Berlusconi é proprietário), e o perfil sinistramente caricatural de Kadhafi era já há muito tempo matéria para piadas dos artistas de cabaré.
A regra segundo a qual os processos secretos não devem ser compostos senão por notícias já conhecidas é essencial à dinâmica dos serviços secretos, e não apenas neste século. Se for a uma livraria consagrada a publicações esotéricas, verá que cada obra (sobre o Graal, o mistério de Rennes-le-Château, os Templários ou os Rosa-Cruz) repete exatamente o que já tinha sido escrito nas obras precedentes. E isso não apenas porque o autor de textos ocultos não gosta de fazer investigações inéditas (nem sabe onde procurar notícias sobre o inexistente), mas porque os que se dedicam ao ocultismo só acreditam naquilo que já sabem e que confirma o que já tinham aprendido.

É o mecanismo do sucesso de Dan Brown. E vale para os ficheiros secretos. O informador é preguiçoso, e preguiçoso (ou de espírito limitado) é o chefe dos serviços secretos (caso contrário, podia ser, quem sabe, editor do Libération), que não reconhece como verdade a não ser aquilo que reconhece. As informações ultrassecretas sobre Berlusconi, que a embaixada norte-americana em Roma enviava ao Departamento de Estado, eram as mesmas que a Newsweek publicava na semana anterior.

Então porquê tanto barulho em torno das revelações destes processos? Por um lado, dizem o que qualquer pessoa informada já sabe, nomeadamente que as embaixadas, pelo menos desde o final da Segunda Guerra Mundial e desde que os chefes de Estado podem telefonar uns aos outros ou tomar um avião para se encontrarem para jantar, perderam a sua função diplomática e, à exceção de alguns pequenos exercícios de representação, transformaram-se em centros de espionagem. Qualquer espetador de filmes de investigação sabe isso perfeitamente e só por hipocrisia finge ignorar.

No entanto, o facto de ser exposto publicamente viola o dever de hipocrisia e serve para estragar a imagem da diplomacia norte-americana. Em segundo lugar, a ideia de que qualquer pirata informático possa captar os segredos mais secretos do país mais poderoso do mundo desfere um golpe não negligenciável no prestígio do Departamento de Estado. Assim, o escândalo põe tanto em cheque as vítimas como os “algozes”.

Mas vejamos a natureza profunda do que aconteceu. Outrora, no tempo de Orwell, podia-se conceber todo o poder como um Big Brother, que controlava cada gesto dos seus súbditos. A profecia orwelliana confirmou-se plenamente desde que, controlado cada movimento por telefone, cada transação efetuada, hotéis utilizados, autoestradas percorridas e assim por diante, o cidadão se foi tornando na vítima integral do olho do poder. Mas quando se demonstra, como acontece agora, que mesmo as criptas dos segredos do poder não escapam ao controlo de um pirata informático, a relação de controlo deixa de ser unidirecional e torna-se circular. O poder controla cada cidadão, mas cada cidadão, ou pelo menos um pirata informático – qual vingador do cidadão –, pode aceder a todos os segredos do poder.

Como se aguenta um poder que deixou de ter a possibilidade de conservar os seus próprios segredos? É verdade, já o dizia Georg Simmel, que um verdadeiro segredo é um segredo vazio (e um segredo vazio nunca poderá ser revelado); é igualmente verdade que saber tudo sobre o caráter de Berlusconi ou de Merkel é realmente um segredo vazio de segredo, porque releva do domínio público; mas revelar, como fez o WikiLeaks, que os segredos de Hillary Clinton são segredos vazios significa retirar-lhe qualquer poder. O WikiLeaks não fez mossa nenhuma a Sarkozy ou a Merkel, mas fez uma enorme a Clinton e Obama.

Quais serão as consequências desta ferida infligida num poder muito poderoso? É evidente que, no futuro, os Estados não poderão ligar à Internet nenhuma informação confidencial – é o mesmo que publicá-la num cartaz colado na esquina da rua. Mas é também evidente que, com as tecnologias atuais, é vão esperar poder manter conversas confidenciais por telefone. Nada mais fácil do que descobrir se e quando um Chefe de Estado se desloca de avião ou contactou um dos seus colegas. Como poderão ser mantidas, no futuro, relações privadas e reservadas?

Sei perfeitamente que, para já, a minha visão é um pouco de ficção científica e, por conseguinte, romanesca, mas vejo-me obrigado a imaginar agentes do governo a deslocar-se discretamente em diligências de itinerários incontroláveis, portadores de mensagens que têm de ser decoradas ou, no máximo, escondendo as raras informações escritas no tacão de um sapato. As informações serão conservadas em cópia única, em gavetas fechadas à chave: afinal, a tentativa de espionagem do Watergate teve menos êxito do que o WikiLeaks.

Já tive ocasião de escrever que a tecnologia avança agora a passo de caranguejo, ou seja às arrecuas. Um século depois de o telégrafo sem fios ter revolucionado as comunicações, a Internet restabeleceu um telégrafo com fios (telefónicos). As cassetes de vídeo (analógicas) permitiram aos investigadores de cinema explorar um filme passo-a-passo, andando para trás e para diante, a descobrir todos os segredos da montagem; agora, os CD (digitais) permitem apenas saltar de capítulo em capítulo, ou seja por macro porções. Com os comboios de alta velocidade, vai-se de Roma a Milão em três horas, enquanto, de avião, com as deslocações que implica, é necessário três horas e meia. Não é, pois, descabido que a política e as técnicas de comunicação voltem aos carros puxados a cavalo.

Uma última observação. Dantes, a imprensa tentava compreender o que se tramava no segredo das embaixadas. Atualmente, são as embaixadas que pedem informações confidenciais à imprensa.



segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Site Wikileaks demonstra vontade dos EUA de bisbilhotar


De São Paulo

A confidencialidade é essencial nas relações interpessoais. Os temas tratados em particular, ainda que os interlocutores sejam pessoas públicas, exigem resguardo e mútuo respeito.

Revelar, ainda que a órgãos de Estado, conversa particular, sem autorização dos emitentes das opiniões, fere os mínimos princípios éticos da boa convivência.

Um diplomata deve informar seu país a respeito de temas relevantes, mas não pode se ater a pequenas fofocas próprias de um bar em pleno sábado pela madrugada.

A revelação dos informes recebidos pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos, de todas as partes do mundo, demonstra uma inusitada vontade de praticar bisbilhotice.

Pouco importa saber sobre os traços psicológicos de um governante. É necessário saber suas intenções sobre o futuro das relações entre dois Estados independentes, um deles os Estados Unidos, no caso.

Estas divagações surgem com a leitura das informações reveladas pelo blog Wikileaks. Mais de duzentas e cinqüenta mil registros formulados pela diplomacia americana foram desvendados.

O episódio possui inúmeras facetas. Leva a desconfiança a qualquer contato com autoridade dos Estados Unidos. A boa e sadia relação entre estados nacionais se rompe. Não há espaço para confiança, tão salutar nas relações humanas, quando a bisbilhotice está presente.

Poderá parecer ingênua esta afirmação, principalmente quando se conhece traços da história da diplomacia. Esta sempre foi envolvida por espiões - mulheres e homens - que buscavam saber as entranhas dos países.

Normal no decorrer dos séculos XIX e parte do século XX. Faltam comunicações e regimes autoritários - como o nazismo e o comunismo - impediam a livre circulação de notícias.

Hoje, com a liberdade dos meios de comunicação existente nos principais países torna-se desnecessária a bisbilhotice. Tudo se sabe e tudo é escancarado. Basta assinar jornais espalhados por toda a parte.

O episódio gerado pelo jornalista australiano Julian Assange, que contou, em sua elaboração, com a contribuição do soldado Bradley Maning, revela a fragilidade dos sistemas de informação dos Estados Unidos.

É frágil a estrutura de poder dos americanos. Nela qualquer pessoa pode penetrar e ingressar nos assuntos de Estado. Sabe-se agora com nitidez como são vistos os governantes estrangeiros pelo sistema norte-americano.

O australiano Assange produziu um estrago irremediável - a curto prazo - na diplomacia dos Estados Unidos. Receber um diplomata americano, a partir de agora, será exercício de obsequioso silêncio.

A par desta constatação, recolhe-se no acontecimento outra conseqüência. A força e o imediatismo da internet. Este instrumento não permite qualquer cerceamento na divulgação das notícias.

A notícia elaborada lança-se imediatamente por toda a parte. Não há bloqueios possíveis antes da divulgação da notícia, ainda porque a elaboração e emissão cabem - muitas vezes - a uma só pessoa.

A internet veio para ficar. Ela não substituirá a média impressa por inteiro, mas certamente a cada dia terá maior presença na sociedade. Esta conclusão é fácil de ser constada.

Uma matéria na internet produz centenas ou milhares de referências dos internautas. Apareceu na internet verifica-se imediata repercussão. Enquanto isto, nos jornais clássicos as cartas dos leitores contam-se às dezenas, na melhor das hipóteses.

Isto quer dizer que a internet é um instrumento democrático eficiente e único? É verdade. Mas, como nada é perfeito, a internet conta com um anonimato que fragiliza os posicionamentos.

O internauta pode se manter anônima. Este fato leva a posicionamentos agressivos e, por vezes, ofensivos. O pensamento - para ser legítimo - precisa contar com autoria expressa.


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A Roupa Nova do Rei, ou melhor, The Emperor's New Clothes

É uma ingenuidade sem tamanho achar que a diplomacia estadunidense respeita os "bons costumes" da diplomacia internacional informando seu país APENAS a respeito de temas relevantes.

Que os EUA bisbilhotam os outros sempre se soube. Ou alguém aí acha que a internet, seus emails, perfis em Facebook, Orkut e similares são sigilosos ? Você que usa gmail, yahoo mail, hotmail ou qualquer outro pense : qual é o mais seguro e sigiloso ?

Não perca seu tempo achando que suas opiniões são anônimas e seguras. O pentágono e o Departamento de Estado dos EUA possuem máquinas que vasculham a internet comandadas por algoritmos. Mas não se iluda, outros países também o fazem. Não vamos novamente bancar os ingênuos e achar que a China, a Inglaterra, a Rússia ficam parados feito poste.

Este episódio do Wikileaks será de grande validade para a humanidade se ajudar a diminuir essa monumental hipocrisia das relações entre países que não mudou muito dos últimos 5.000 anos; ou seja, uns querendo dominar/controlar, outros. Foi assim no Império Romano - que não tinha internet - e é assim hoje.

Até parece que todos são amigos. Não, ninguém é amigo de ninguém. Não existem relações sadias entre países. Existem relações doentes, relações de domínio, relações de império.

E essa história de que somos todos iguais é pura ilusão. Como 2 países podem ser iguais se um tem 10.000 ogivas nucleares e o outro não tem nenhuma ?

O Wikileaks presta um grande serviço ao colocar às claras a hipocrisia, não apenas a dos EUA nas suas relações imperiais que todos já conhecemos, mas a dos outros países que fingiam não ver para parecerem inteligentes tal como no conto de Hans Christian Andersen.

Julian Assange é o menino que grita : O Rei está nú !


+ info :

. . O Rei Nu : Rubem Alves

. . . A Roupa Nova do Rei : Wikipedia em português

. . The Emperor's New clothes : Wikipedia em inglês